Falar de autenticidade[1] e transparência[2] é falar,
de acordo com o dicionário, da qualidade do que é ser autêntico, verdadeiro; e
qualidade do que é ser transparente e que vem do radical transpar (ecer), que
nos remete para algo límpido. Mas será possível usar estes dois termos quando
nos referimos à comunicação e ao uso da rede.
Segundo Castells uma sociedade em
rede é o resultado das relações que se estabelecem entre o social, o económico
e o moral. Deste jogo de forças organiza-se a rede, que não são mais do que as
ligações que promovem a interdependência entre todos os que a utilizam e se
ligam virtualmente. Neste sentido, Lévy defende que a rede se organiza num
mundo digital em que parte da realidade, do mundo da significação se funde com
o mundo virtual. Logo, o ciberespaço, onde se desenvolve a rede, é um meio de
interconexão mundial em que cada um pode assumir diferentes papéis. Por este
motivo, organiza-se como um sistema aberto em que há uma mudança constante, e
em que os significados fazem parte do simbólico e da sua relação com o real.
Já Baudrillard vem referir que é
quase impossível separar o mundo real do mundo virtual pois, estamos num mundo
hiper-real em que o excesso de informação nos deixa “ desinformados”. Neste
sentido, Baudrillard refere que vivemos numa simulação em que temos uma
presença ausente, pois ao criarmos uma imagem nem sempre a mesma corresponde à
realidade.
Estas ideias levam-nos a refletir
sobre a nossa identidade virtual vs a nossa identidade privada. Será que é o
mesmo? Será que fazemos usos diferentes da nossa identidade? Ou será que temos
diferentes identidades? Será a nossa identidade virtual um prolongamento da
nossa identidade pessoal?
A falta de verificabilidade
física, de uma entidade que faça a validação, no mundo virtual ou de ligação à
rede, leva a que possa existir uma manipulação, uma criação de uma identidade
que não corresponda à identidade pessoal, mas sim à identidade que eu gostaria
de ter, e que crio quando me ligo na rede.
Assim, as identidades que se criam
no acesso à rede, por não terem uma entidade “fiscalizadora” ou de validação, permitem
que se possam falsear informações. Deste modo, e como a rede é construída pelas
informações que cada um coloca sobre si, a mesma pode não corresponder à
verdade.
A identidade virtual resulta do
que definimos como “verdadeiro” na rede, e nesse campo nos define, mas que pode
estar desfasado da realidade. No digital temos a possibilidade de direcionar os
outros para uma imagem de nós, que pode não corresponder à realidade. Assim
falar de autenticidade e transparência na rede não é passível de se assumir
como fácil.
A verdade é que a internet ( a
rede) quando usada sem autenticidade permite criar um “ eu” à semelhança do que
idealizamos para nós e que pode não corresponder ao real. A rede passa então a
ser um facilitador de fraude, uma vez que não há validação destes dados. Esta
autenticidade e transparência está intimamente ligada à capacidade que cada um tem
de usar a sua liberdade para não enganar/defraudar os outros. Esta realidade
vai ao encontro de algumas das ideias de Baudrillard que defendia que a
realidade deixa de ser a mesma, passando a ser um simulacro, uma simulação, em
que o real é substituído pelos seus signos. De acordo com esta perspetiva, há
uma mistura entre a identidade virtual e a identidade pessoal, que se refere ao
modo como nos posicionamos e identificamos na rede e que interfere, ou tem
repercussões, no modo como vivemos na realidade e nas conexões que estabelecemos
fora da rede.
Como refere Lévy, não é possível
separar o virtual do real, pois estes dois “mundos” complementam-se e
relacionam-se influenciado as relações dentro e fora de cada um deles.
Tal como na vida real, a vida
virtual passa pela noção que cada um tem do modo como quer conduzir a sua
conduta perante os outros. Se a nossa perspetiva é de autenticidade e
transparência, as informações que colocamos na rede vão estar de acordo com
esses princípios; por outro lado se o nosso intuito é “criar” uma personagem
para “habitar” uma rede que satisfaça o “meu ideal”, então o uso de
autenticidade e transparência pode estar comprometido.
Importa, no entanto, refletir sobre:
Será que na vida real a nossa identidade é sempre a mesma? Ou será que também a moldamos em função dos contextos em que nos encontramos?
Baudrillard, J. (2001) Simulacros e Simulação. 2a edição. Lisboa: Relógio d’Água.
Lévy, P. (2000) Cibercultura. Lisboa: Piaget.

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